A cigarra e o caranguejo, uma inspiração de inverno

Publicado 21 de junho de 2012 por Poema Querubin

La Fontaine (1621-1695)
Tradução de Bocage (1765-1805)

A Cigarra e a Formiga

Tendo a cigarra, em cantigas,
Folgado todo o verão,
Achou-se em penúria extrema,
Na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha
Que trincasse, a tagarela
Foi valer-se da formiga,
Que morava perto dela.

– Amiga – diz a cigarra
– Prometo, à fé de animal,
Pagar-vos, antes de Agosto,
Os juros e o principal.

A formiga nunca empresta,
Nunca dá; por isso, junta.
– No verão, em que lidavas?
– À pedinte, ela pergunta.

Responde a outra: – Eu cantava
Noite e dia, a toda a hora.
– Oh! Bravo! – torna a formiga
– Cantavas? Pois dança agora!

Quem nunca ouviu a historinha acima? A cigarra badernista que esborneia durante todo o verão enquanto a precavida formiguinha trabalha noite e dia a fim de se preparar para a chegada do Inverno. Quando o Inverno chega, a cigarra badernista percebe que está lascada – porque não juntou mantimentos, não se preparou – enquanto a formiguinha passa muito bem obrigado pela estação mais rigorosa do ano e ainda tira uma com a cara da cigarra badernista.

Hoje exatamente às 20h 09 começa o Inverno para as as cigarras badernistas e formiguinhas precavidas que habitam o Hemisfério Sul desse planeta lindão. Associar a chegada dessa estação com as dificuldades enfrentadas num Inverno rigoroso – neve, temperaturas negativas e as consequências urbanas/sociais/ambientais por conta disso – escrevendo a partir de um país em que 15 °C é motivo para colocar toca, cachecol e luva, ao meu ver, não faz muito sentido. Mesmo porque as cidades que de fato podem se gabar do uso de sobretudo, ponche e bota térmica infelizmente fazem parte de uma minoria localizada principalmente no Sul do país. Infelizmente porque eu amo frio e se dependesse de mim o clima das estações, o Inverno em São Paulo seria assim ó:

Foto tirada por mim no Tsaritsyno Park em Moscou, Rússia

Certo, se a associação com o frio não faz muito sentido, logo a associação com a escassez dos recursos também não faz e a história da cigarra badernista e da formiguinha precavida tampouco (existe essa palavra em português? eu uso sempre em espanhol…x). O que faz menos sentido ainda se considerarmos que hoje em dia  – se considerarmos a parte da população que tem o mínimo de poder aquisitivo, trabalho remunerado e afins - se tem de tudo a tempo e a hora, ninguém precisa fazer estoque de alimento para o Inverno nem muito menos se refugiar de nevascas e possíveis avalanches hibernando em casa.

Aí que eu me lembrei de uma coisa básica nível aula da quarta série de Ciências Sociais a respeito da mudança das estações do ano independente do hemisfério em questão: a duração dos dias e das noites. É a partir do Solstício de Inverno que as noites ficam mais longas que os dias, isto é, há mais penumbra do que luminosidade solar. Isso pode ser em Porto Alegre, Belo Horizonte ou Juazeiro do Norte. Claro que se considerarmos um dia de Inverno em São Petersburgo na Rússia, por exemplo, por volta das 4 da tarde o sol já começa a se por, as 5 já está tudo escuro. Por aqui – Brasil – não chega a ser desse jeito, embora seja possível sim perceber que as noites, a partir de hoje, estarão mais longas.

Por conta disso, nós temos a sensação engana trouxa do horário de Verão só que ao contrário. Explicando: num dia de Verão já são 7 e tantos da noite mais o sol ainda brilha não dá aquela sensação de que se tem um dia inteiro pela frente e que dá para fazer muita coisa ainda? Agora, sai mais cedo do trabalho num dia de Inverno. Tipo você sai geralmente as 18:30 e conseguiu sair as 17:00, só que dali o sol já se põe e minutos depois já está tudo escuro. A sensação de “meu dia acabou, não dá para fazer mais nada, vou para casa” será a mesma de que se você tivesse saído as 18:30.

“Vou para casa”. Geralmente, se vai para casa quando não há mais nada “na rua” para ser feito. É na casa que é possível fazer coisas que geralmente acontecem com maior frequência nela: tomar banho, dormir, se vestir, descansar, assistir tv, jogar, ler, internet (com livre acesso), se dedicar a algum projeto pessoal, cozinhar aquele prato gostoso, ficar o dia inteiro de pijama e pantufa morgando no sofá e conviver em família, entre outras cositas mais. Por mais que você passe muito tempo do seu dia entre trabalho e afins, dificilmente nesse ambiente você vai poder parar para tomar banho e muito menos na balada com os amigos você vai poder cozinhar para a galera. Porque essas duas ações, “tomar banho” e “comer” dependem de um lugar próprio para que elas ocorram lugar esse que geralmente é chamado de CASA.

Se tem um signo do zodíaco responsável por esse aspecto em nossos mapas astrais esse signo é Câncer. O quarto signo do zodíaco é tão caseiro que carrega com ele a sua própria casa: a carapaça. Câncer também é conhecido por ser um signo família, afetuoso, sentimental, dedicado, protetor e nostálgico. O outro lado disso pode ser o apego, a dependência emocional e o mimimi básico em forma de mágoa canceriano. Indepedente das qualidades positivas e negativas, Câncer sabe muito bem a hora de se recolher na sua concha e é nela, no meio de um turbilhão de memórias e emoções que ele encontra a sua maior riqueza: o afeto.

Pois bem, como eu já expliquei em muitas outras ocasiões, os signos trazem em si o início, estabilização ou mudança de alguma estação do ano, porque eles estão na Terra, não no céu (signos e constelações são coisas diferentes, já expliquei aqui). Adivinha qual signo traz o Inverno para o Hemisfério Sul? Sim, o caseiro e protetor signo de caranguejo, Câncer. É o caranguejo que dá o impulso para o início do Inverno pelas bandas abaixo da linha do Equador. E é aí que a fábula da cigarra badernista volta a fazer sentido, se substituirmos a formiguinha precavida pelo cuidadoso e caseiro caranguejo.

Hoje em dia, para muitas pessoas, dizer que vai ficar em casa é feio, é sinônimo de não ter mais nada de interessante para se fazer. Estar online no chat do Facebook num sábado a noite então? Afff, só alguém muito forever alone passa por isso. Sair sexta, sábado e domingo, de balada em balada, barzinho, encontro com os amigos, namorados, shows, ensaios e afins é obrigatório para um estilo de vida pautado somente na diversão e superficialidade. Isso tudo muito bem divulgado pela atualização do feed do Facebook, marcação de Foursquare e fotos, claro porque se não divulgar e ninguém curtir, é como se não tivesse existido. As cigarras badernistas dos dias de hoje.

Só que a partir de hoje é até 23 de Setembro, a natureza pulsa o Inverno, estação do recolhimento, da observação, da preparação, enquanto o céu vibra Câncer, signo caseiro, protetor e sentimental. O caranguejo que sabe a hora de se recolher na concha e ficar quietinho na dele, desfrutando da fonte de sua maior dádiva: o lar.

Há quanto tempo você não passa um fim de semana em família? Não faz um programinha caseiro? Está pensando em reformar aquele armário? Organizar aquela gaveta? Tentar aquela receita? Chamar os mais chegados para uma maratona daquela série legal? Terminar aquele livro? Fazer um spa em casa? Dormir mais que a cama? Ficar o fim de semana inteiro de pijama e só sair na segunda porque precisa trabalhar?

Não estou falando que é para ficar em casa hibernando o Inverno inteiro. Compromissos sociais aparecem e tem a sua importãncia. A questão aqui é ter a consciência da necessidade do recolhimento, de assim como o caranguejo, saber a hora de se recolher na sua concha e saber que ela, apesar do que for, é o lugar que você precisa e gostaria de estar porque é lá que onde você se nutri de carinho, cuidado e proteção para quando esse ciclo acabar e a Primavera chegar você ser uma cigarra, badernista até pode ser, só que mais consciente e com uma carapaça muito mais forte.

Um Inverno inspirado para todos vocês,

Inspirem-se!

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6 comentários em “A cigarra e o caranguejo, uma inspiração de inverno

  • *-* olhos brilhando. tradução de sentimento fidedigna. você sabe, disso, realmente sabe! o caseiro canceriano aqui busca refugio e acumula forças pra jornadas que irão começar em breve=) grato pela descrição mais acertada do típico canceriano! Beijos estalados e abraços apertados (pra não faltar afeto canceriano!)

    • Fico muito feliz em conseguir fazer seus olhos brilharem Bruno, afinal você não foi muito com a cara do texto da Saga das 12 Casas sobre Câncer
      Beijos e abraços, você transborda afeto e eu amo isso
      Ainda mais hoje dia tão especial
      *.*

  • Adorei a parte: Sair sexta, sábado e domingo, de balada em balada, barzinho, encontro com os amigos, namorados, shows, ensaios e afins é obrigatório para um estilo de vida pautado somente na diversão e superficialidade.

    Não sei se Capricorniano já nasce velho,mas olha..nunca fui assim,de querer status. e tampouco me importava com a opinião alheia. Eu era uma criança estranha, preferia ficar em casa lendo livros. Ninguém me entendia hahahaha
    ;-)

    • Acho que tem uns capricas que nascem velhos sim ou pessoas com um Saturno no ASC ou na casa 5
      Aquário tem um pouco disso também, outro regido pelo Saturnão

      Sei bem como é isso Patty, mas pelo menos você não chama “Poema” e só vestia preto hehe

      Beijos
      Um inverno inspiradíssimo para você!

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